quarta-feira, 17 de março de 2010

MISTAGOGIA MOTIVACIONAL: UMA PROPOSTA DE METODOLOGIA CATEQUÉTICA INCULTURADA Motivação

2. Uma perspectiva motivacional para a metodologia catequética

Na história constatamos como a Pedagogia Divina buscou levar os seres humanos a imergir no Mistério Revelado a partir das disposições pessoais. Queremos refletir sobre o processo da motivação da disposição pessoal e constituir uma perspectiva motivacional para a metodologia catequética.

Na análise da disposição pessoal do ser humano, é necessária uma visão de ser humano uno de corpo e alma, pois o ser humano é motivado na sua totalidade. Disposição pessoal formada no processo de socialização, que para Pierre Bourdieu tal processo seria a formação do habitus, isto é, “sistemas de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio gerador e estruturador das práticas e das representações”.[1] No processo de socialização o indivíduo vai adquirindo inclinações para perceber, sentir, fazer e pensar, tais inclinações são interiorizadas a modo de disposições pessoais. E a catequese faz parte desse processo de socialização. A graça também age nesse processo. Karl Rahner afirma que a própria disposição pessoal é atuação da graça, é a graça que age sob a forma de disposição.[2]

A motivação é a força interior que leva o individuo a agir. A motivação é um estado interno que ativa ou movimenta, representada por todas as condições de esforço ou desempenho interno, descrita como aspirações, desejos, estímulos, impulsos etc. [3] No nosso caso, motivar é suscitar na disposição pessoal o desejo de imergir no Mistério do amor de Deus. A motivação é algo intrínseco, é um processo interno ao indivíduo. O motivo leva o indivíduo a tomar a decisão de se abrir à satisfação das próprias necessidades, das necessidades básicas até a sua auto-realização, conforme Maslow.[4]

Auto-realização que admitimos neste trabalho como amor-entrega. O agente motivador consegue ajudar na motivação do outro na medida que conhece o próprio estilo de comportamento motivacional, e entende assim o processo da motivação da própria disposição pessoal e ajudar o outro a se abrir na satisfação das próprias necessidades. O agente motivador através de uma sensibilidade interpessoal evita assim qualquer tentativa de motivar o outro através de recompensa ou punição numa atitude dominadora.

O encontro com o Mistério do amor de Deus na fé faz com que, “aquela ânsia, freqüentemente inconsciente e sempre limitada, de conhecer a verdade sobre Deus, sobre o próprio homem e sobre o destino que o espera. É como uma água pura que reaviva o caminho do homem peregrino em busca de seu lar”.[5] A motivação é ação da graça de Deus que antecede e ajuda nos atos humanos. O Espírito Santo, através do dom da fé, move o coração humano e o dirige para Deus, dando-lhe a graça de consentir e de crer na verdade.[6]

Considerando a motivação das pessoas, isto é, o que move suas disposições pessoais, a catequese procura penetrar nas pessoas, estimulando uma atitude de radical conversão a Deus de tal modo que aconteça um pleno amadurecimento do amor.[7] Numa perspectiva de catequese inculturada, todo esse processo leva em conta a pessoa e sua disposição, mas também o Mistério revelado ao qual a pessoa é chamada a imergir através da graça como veremos a seguir.



[1] Esboço de uma teoria da prática. In: ORTIZ, R. (Org.). Pierre Bourdieu. São Paulo: Ática, 1994, p. 60-61.

[2] Cf. RAHNER, K. Novo sacerdócio. São Paulo: Herder, 1968, p. 210.

[3] Cf. MONTEIRO LOPES, T. de V. Motivação no trabalho. Rio de Janeiro: Ed. da Fundação Getúlio Vargas, 1980, p. 10.

[4] Cf. MAITLAND, I. Como motivar pessoas.São Paulo: Nobel, 2002, p. 7-10.

[5] Cf. CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretório Nacional de Catequese, 2005. Brasília: CNBB, 2006, 55.

[6] Cf. Diretório Nacional de Catequese 55.

[7] Cf. Diretório Nacional de Catequese 204.

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