quarta-feira, 17 de março de 2010

MISTAGOGIA MOTIVACIONAL: UMA PROPOSTA DE METODOLOGIA CATEQUÉTICA INCULTURADA Amor Entrega

1. O princípio meta-metodológico do Amor como Entrega

1.1 O princípio meta-metodológico na Pedagogia Divina

A Mistagogia Motivacional tem por modelo a Pedagogia Divina. Pedagogia que é a “forma histórica que Deus seguiu ao longo do tempo para dar-se a conhecer, manifestar seu projeto libertador e chegar ao encontro com a humanidade”.[1] A Santíssima Trindade é uma comunidade perfeita de amor eterno e oblativo, esse amor transborda na criação e chama o ser humano a vida como imagem de Deus, isto é, homem e mulher capazes de serem fecundos, de se entregar um ao outro no amor verdadeiro. Mesmo quando o pecado entra no coração humano, Deus não desiste do ser humano e em Abraão Deus quer chamar o povo a entregar-se a Ele em sua fé. No êxodo o povo faz a experiência de libertação da dominação egípcia e no deserto passa ela experiência da Aliança e da lei, para aprender a amar. Pelos profetas Deus promete a Aliança de amor inscrita no coração humano, Aliança a ser concretizada pelo Messias que vem para salvar o povo dos Pobres e derramará o Espírito para dar um coração humano que saiba amar e não fechado em si mesmo.

Jesus revela o Mistério do amor do Pai em toda a sua existência, em suas palavras, em sua maneira de ser e de se portar.[2] O encontro com Jesus é encontro com o Mistério de Deus que se revela. Como, por exemplo, no itinerário de fé do grupo apostólico, o encontro com os pecadores, daqueles que estão sob a dominação e excluídos do convívio do amor (cf. Mc 2, 17). Foi no encontro pessoal que a disposição interior dos interlocutores foi motivada por Jesus, como Zaqueu (cf. Lc 19,8), que respondendo ao convite de mudar sua disposição pessoal em vista do Reino de Deus. Jesus também se encontrou com a incompreensão humana do Mistério revelado nele, como nos seus conterrâneos nazarenos (cf. Mc 6, 1-6). O cume da obra de salvação é a Entrega de Cristo a seu Pai, o fechamento do ser humano a Deus é sanado pela entrega salvadora de Jesus em seu sacrifício, entrega que atrai e atrairá o ser humano a Deus (cf. Jo 12, 32). Em sua pedagogia de amor ou metodologia mistagógico-motivacional, Jesus leva as pessoas a se abrirem a esta entrega e a viverem em suas vidas. A Igreja procura continuar essa metodologia mistagógica-motivacional.

O anúncio do Evangelho pelos apóstolos favorece a constituição de comunidades, nas quais os seguidores de Jesus vivam o amor mútuo. A Igreja que submerge suas raízes no judaísmo vai adentrando progressivamente no mundo greco-romano. As conversões acontecem e até metade do século II não havia uma instituição especializada para catequizar os convertidos. No século III consolida-se o catecumenato nas principais Igrejas e no século IV surgem as catequeses mistagógicas dos Padres. No processo mistagógico, a Sagrada Escritura narra a evolução desse Mistério no tempo e no espaço, os ritos celebram o Mistério de Deus e inserem o batizado nesse mesmo Mistério, na História da Salvação, e por fim os sacramentos prolongam esse Mistério na vida do fiel (vida moral) e abrem-no à esperança escatológica. Tendo por centro Jesus Cristo como revelação do desígnio amoroso de Deus. Santo Agostinho na sua obra De Catechizandis Rudibus conclui que o catequista se inspire no modo de agir de Deus na revelação de seu plano de amor, na paciência e na compreensão.[3] Com a inserção cristã em todo o tecido da vida civil e cultural, a aproximação Igreja e Estado a partir de 313 e o favor concedido pelos imperadores ao Cristianismo enfraquecerá as motivações que levam ao batismo e por conseqüência o catecumenato começa a desaparecer. A tutela do Estado leva a uma catequese que frisa muito mais a dominação e a submissão, do que a convivência no amor. Uma catequese superficial e pobre de conteúdo que torna o povo cada vez mais ignorante, preso às superstições numa religião mágica. O êxito da Reforma Protestante mostrou a necessidade da instrução na fé das crianças e dos adultos. O Concílio de Trento obriga bispos a providenciar a catequese nas paróquias, caracterizada pelo processo da memorização. No Brasil a catequese nesse período seguia duas linhas, ou a catequese missionária voltada para a conversão dos infiéis ou a catequese tradicional existente em Portugal na época do descobrimento.[4] O século XX é caracterizado pela metodologia catequética, como por exemplo, o método indutivo ou método de Munique, a catequese querigmática, ou no pós-vaticano segundo uma catequese que quer ter por centro o ser humano. No Brasil após as Conferências de Medellín e Puebla, surge o Documento 26 da CNBB, Catequese Renovada, que apresenta a catequese como educação permanente da fé para a comunhão e participação na comunidade, de modo que o catequizando possa unir fé e vida.

Neste início do século XXI, a catequese mais do que se questionar sobre qual metodologia a seguir, tomada como um conjunto de métodos, precisa questionar-se sobre uma meta-metodologia, isto é, um quadro referencial que insira as várias metodologias dentro do panorama histórico e teórico da catequese. Obter não somente um princípio metodológico, que perpassa todo o conteúdo da catequese, mas obter o princípio meta-metodológico das diversas metodologias, que este trabalho considera como a pedagogia do amor ou de Entrega, como princípio único da Revelação de Deus na História.

1.2 Análise sócio-antropológica da dimensão de Entrega do ser humano

Numa perspectiva sócio-antropológica analisamos neste item o amor como Entrega, a partir da parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), bem como seu contraposto que é a dominação, a partir da parábola do devedor implacável (cf. Mt 18, 21-35) e da parábola dos vinhateiros homicidas (Mt 21, 33-46; Mc 12, 1-12; Lc 20, 9-19), para obtermos um quadro de análise sócio-antropológico do amor como Entrega, isto é, do princípio meta-metodológico da Mistagogia Motivacional.

O Samaritano viu o necessitado, diferentemente do sacerdote e do levita, move-se de compaixão,[5] sobre as feridas põe azeite para suavizar e vinho para desinfetar, o conduz a uma pousada e cuida daquele homem necessitado. Coloca-se a disposição ao recomendar ao dono da pousada que cuide dele e diz “o que gastares a mais, em meu regresso te pagarei” (Lc 10, 35). O amor faz o Samaritano mover-se de compaixão, entregar-se ao cuidado do necessitado, sem se preocupar com barreira religiosa ou política. Um amor que leva o Samaritano a entregar-se ao outro, amar como Entrega que gera vida no próximo, estabelece vínculo, que tem peso eterno e é a essência da Aliança com Deus. Isto é o fazer a vontade de Deus para conseguir a vida eterna, conforme a resposta do jurista. Por fim, o homem livre ama o próximo necessitado. O homem livre consciente de sua própria solidão, por princípio sabe-se necessitado do amor divino e da ajuda de outras pessoas, ele tem consciência de sua própria debilidade. O homem livre sabe-se um necessitado, um pobre. O próprio Jesus identificou em si esta necessidade de ser amado por um ser humano (cf. Jo 21, 16). Esta consciência da própria pobreza é que faz com que o Samaritano vá ao encontro da necessidade do próximo, sejam tais necessidades corporais, psicológicas, afetivas ou espirituais. O homem que ama procura então, satisfazer a necessidade do outro, não suas vontades, mas as suas verdadeiras necessidades, isto é, aquelas destinadas a propiciar a maturidade humana. Concluindo, o homem livre sabe-se pobre, vê o próximo, pressupõe nele o amor e vai ao encontro de sua necessidade, para que este também se torne um homem livre e possa amar. O amor como Entrega consiste em primeiro lugar em ver, em estar atento à realidade do outro. Depois se mover de compaixão, todo o nosso ser estar voltado para auxiliar o outro em sua real necessidade, doar a nossa vida, tempo e qualidades para satisfazer as verdadeiras necessidades do próximo, para que o necessitado tenha vida e possa tornar-se assim um ser humano livre. É preciso estar sempre à disposição, estar presente a cada instante na vida do necessitado. Mas nesse processo estar conscientes do sofrimento que isso gera e assumir tal sofrimento na Cruz do Senhor Jesus Cristo. A Entrega gera vínculos que perduram pela eternidade, uma aliança eterna em Cristo que satisfaz o coração humano. Esse amor-entrega, que procura fazer o bem (cf. At 10, 38), é graça de Deus e é o fundamento da motivação humana, isto é, do mover do coração humano (cf. Lc 10, 33).

Se o amor é a tese, a dominação é antítese do processo da implantação do Reino. Para definir a dominação tomamos por paradigmas as parábolas do devedor implacável (Mt 18, 21-35) e a dos vinhateiros homicidas (Mt 21, 33-46; Mc 12, 1-12; Lc 20, 9 -19). A dominação surge no coração do ser humano que, não aprendendo amar e ser amado, não aceita a sua condição de necessitado e encastela-se. O dominador procura subordinar o outro, absorvê-lo, numa busca de uma falsa união através da hipocrisia. Essa dominação, que pode se transvestir de amor, caracteriza-se principalmente em instrumentalizar o outro na falsa tentativa de satisfazer as próprias necessidades. Tudo isso gera nas relações humanas desconfiança e por fim separação.

1.3 A dimensão de Entrega da Pedagogia Divina na Revelação do Mistério: uma análise teológico-sistemática

A finalidade da catequese é ensinar o catequizando a vivenciar o Mistério Revelado da comunhão da Trindade oferecida ao ser humano. A missão da catequese é ensinar a amar, de tal modo que o catequizando no equilíbrio entre corpo e espírito no ato de amor, eduque o amor eros, para que seja base para que o amor-ágape possa acontecer. Eros e ágape, amor-entrega que como essência da Trindade e da Revelação, torna-se princípio meta-metodológico de uma catequese inculturada.

A Entrega é essencial à vida íntima da Trindade e está impregnada na criação. Jesus, Deus e Homem, é a autocomunicação, a auto-entrega encarnada de Deus e torna a Entrega a lei da Nova Criação inaugurada por Ele no Espírito.[6] O relacionamento de Entrega entre Pai e Filho na Trindade agora pode ser participado por cada ser humano pela graça. O centro da Revelação é pois Deus que em seu Filho e no Espírito comunica a si mesmo, se Entrega, para que o ser humano possa comungar da essência da Trindade. O Espírito leva o crente a viver a Lei de Cristo cumprida a partir da liberdade do serviço mútuo. Por fim, o ser humano é chamado a participar pela graça recebida nos sacramentos da comunhão da Trindade formando a comunhão dos chamados, a Igreja.

O acesso a essa comunhão nos é propiciada por Jesus Cristo no Espírito, neles podemos viver a Entrega perfeita ao Pai. Afirmamos que especificamente a participação nessa Entrega se dá através do sacerdócio de Cristo, isto é, através da participação na Entrega eterna do Ressuscitado ao Pai no Espírito. A transformação obtida por Cristo por sua Entrega ao Pai está aberta à participação de todos os seres humanos, basta aderir a Cristo na obediência da fé (cf. Hb 5, 9). Os fiéis pois são consagrados no sacramento do Batismo como sacerdotes batismais, isto é, associados ao estatuto ou condição sacerdotal de Jesus Cristo, à sua Entrega obediente ao Pai.[7] A Liturgia é o momento do exercício do sacerdócio de Cristo. A Liturgia é celebração do Mistério Pascal, atualização do amor transformante de Deus no interior de cada fiel. Mistério Pascal da paixão, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo que indica antes de tudo o fato da obediência à vontade do Pai que teve como resposta a glorificação de Jesus (cf. Fl 2, 6-11), pois foi ouvido graças à sua piedade (cf. Hb 5,7), esse aniquilamento e glorificação constitui o cume de sua existência e de toda a história da bondade e da misericórdia de Deus em seu amor pelo homem.[8]

Na auto-entrega de Jesus a relação do ser humano com Deus e com o próximo une-se no novo culto. A vida cristã passa a ser um culto oferecido a Deus, o fiel unido à auto-oferta de Jesus na liturgia está habilitado a oferecer a própria vida a Deus no amor ao próximo, torna a sua própria vida um sacrifício de louvor (cf. Rm 12, 1). Essa participação torna o ser humano um sacrifício vivo, um sacerdote real que oferece a Deus sacrifícios agradáveis através de obras de amor.

Concluímos este item com a afirmação de Karl Rahner, que resume de forma magistral a relação da dimensão de Entrega presente em Deus e no ser humano:

O homem chega realmente a si mesmo em genuína autorealização somente quando ousa colocar-se radicalmente em favor dos outros. Ao fazê-lo, acolhe (atemática ou explicitamente) o que entende por Deus enquanto horizonte, garante a radicalidade deste amor, o qual em autocomunicação (existencial e historicamente) se faz o espaço da possibilidade desse amor. Este amor entende-se de maneira íntima e social e, na radical unidade destes dois momentos, ele é o fundamento e a essência da Igreja.[9]



[1] CELAM. Manual de catequética. São Paulo: Paulus, 2007, p. 211.

[2] Cf. CATECISMO da Igreja Católica, 1997. Petrópolis: Vozes, 1998, 516.

[3] Passim. AGOSTINHO. A instrução dos catecúmenos: Teoria e prática da catequese. Petrópolis: Vozes, 2005.

[4] Cf. AZZI, R. Os primórdios da catequese: Arranjos do período colonial e imperial. In: PASSOS, M. (Org). Uma História no plural: 500 anos do movimento catequético brasileiro, p. 16-24.

[5] Do grego splagcnizomai, comover-se. A palavra motivação advém do latim movere, que significa mover.

[6] Cf. KELLER, H. Cristologia. In: SCHNEIDER, T. (Org.). Manual de dogmática. 2ª ed. V.1. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 354.

[7] Cf. FABRIS, R. Carta aos hebreus. In: As cartas de Paulo III. São Paulo: Loyola, 1992, (Bíblica Loyola 6), p. 458

[8] Cf. MARTÍN, Julián López. No Espírito e na Verdade 1: Introdução teológica à liturgia. Petrópolis: Vozes, p. 160.

[9] Curso fundamental da fé. São Paulo: Paulinas, 1989, p. 527.

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