quarta-feira, 17 de março de 2010

MISTAGOGIA MOTIVACIONAL: UMA PROPOSTA DE METODOLOGIA CATEQUÉTICA INCULTURADA Princípios

4. A Mistagogia Motivacional

4.1 A Mistagogia

Mistagogia é um termo advindo da língua grega, composto do substantivo mystes (mistério), que talvez derive do verbo myo (fechar os lábios) e do verbo ago (conduzir). Significa a introdução de uma pessoa no conhecimento de uma verdade oculta.[1] Como já foi visto no primeiro capítulo, o Mistério é revelado na História cujo cume dessa Revelação é Jesus Cristo. Os Padres da Igreja foram iniciadores sábios dos convertidos ao Mistério Cristão. Esse processo de iniciação foi a Mistagogia cristã.

O itinerário mistagógico da catequese é estruturado em três fases. Em primeiro lugar a interpretação dos ritos à luz dos acontecimentos salvíficos, em especial o Mistério Pascal, em conformidade com a tradição viva da Igreja. Em segundo lugar, a catequese mistagógica procura introduzir no sentido dos sinais contidos nos ritos, através da educação da sensibilidade dos fiéis para a linguagem dos sinais e dos gestos, unidos à palavra, constituem o rito. Enfim, em terceiro lugar a mistagogia busca mostrar o significado dos ritos para a vida cristã em todas as suas dimensões, de tal modo que a própria vida vai sendo progressivamente transformada pelos mistérios celebrados. A finalidade da mistagogia é formar o fiel para uma fé adulta, que o torne capaz de testemunhar no mundo a esperança cristã que o anima.[2]

Nesta catequese “a narração (narratio) das maravilhas realizadas por Deus e a espera (expectatio) do retorno de Cristo acompanhavam sempre a exposição dos mistérios da fé”.[3] Tendo o Mistério de Cristo como centro de todos os demais elementos da Mistagogia.[4] Este encontro com Cristo é mediado pela linguagem simbólica, de tal modo que a comunhão com Jesus Cristo leva o catequizando a celebrá-lo nos sacramentos, em especial na Eucaristia.[5] O homem no encontro com Cristo pode assim tornar claro seu próprio mistério. O Mistério do Amor do Pai é assim manifestado plenamente ao homem e lhe descobre a sublimidade de sua vocação. Isso vale não somente aos cristãos, mas a todos os homens que procuram a Deus de coração sincero. Por Cristo, no Espírito Santo, o ser humano descobre sua vocação na vida divina e o enigma da morte e da dor é iluminado pelo Mistério Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo.[6]

Porém, vivemos hoje tempos de secularização, a nova evangelização necessita educar o ser humano nos valores pessoais e positivos do Mistério da pessoa humana a partir do Mistério do Amor de Deus revelado em Jesus Cristo.[7] O contexto da secularização dificulta também a entrada na trama simbólica e ao acesso à salvação pelas vias rituais. Torna-se necessário uma educação para o simbólico, com uma progressiva iniciação às “atitudes interiores e exteriores que caracterizam a vida litúrgica”.[8]

Atualmente, torna-se necessário auxiliar as pessoas no processo de conhecer o mistério do Reino de Deus, suas promessas e exigências. Para que isso se efetive, a Igreja tem no Catecumentato batismal o modelo de toda a catequese, os elementos da mistagogia catecumenal deve inspirar a catequese e o significado metodológico dos mesmos. Mistagogia que é de responsabilidade de toda a comunidades cristã, impregnada pelo mistério da Páscoa de Cristo e um lugar privilegiado de inculturação. Mistagogia que seja um processo formativo e uma verdadeira escola de fé.[9]

4.2 Princípios da Mistagogia Motivacional

Traçado o quadro referência da meta-metodologia da catequese como o Amor-Entrega, traçamos abaixo os princípios básicos da Mistagogia Motivacional:

1º Conhecer o Mistério Revelado. A catequese é uma formação orgânica e sistemática da fé, e procura assim o aprofundamento vital e orgânico do Mistério de Cristo, [10] uma fé professada, celebrada, vivida e orada.[11] A Mistagogia, através da introdução do catequizando na linguagem simbólica e sacramental, procurará transmitir o conteúdo do Mistério de forma orgânica, de tal modo que cada catequizando possa ver na Revelação a solução para os profundos questionamentos de sua vida. Por isso, o catequista precisa conhecer o Mistério, a Revelação do Mistério, sua comunicação na liturgia e a vivência pela caridade, articular a transmissão do Mistério em torno do Amor Entrega tanto diacrônica como sincronicamente.

2º Conhecimento da própria disposição pessoal pelo catequista e do próprio estilo de comportamento motivacional. O catequista deve ter consciência da formação da própria disposição pessoal no processo da socialização dentro da sua cultura e como o Mistério Revelado, celebrado e vivido, satisfaz as suas necessidades e motivação, isto é, seu estilo de comportamento motivacional.

3º Conhecer a disposição pessoal do catequizando e seu estilo de comportamento motivacional. O catequista, a partir do conhecimento da própria disposição pessoal e da sua formação poderá conhecer a disposição pessoal dos catequizandos e o processo da formação das respectivas disposições pessoais, para assim poder ministrar a catequese de modo eficaz. Entender como a disposição pessoal do catequizando foi formada na cultura, no processo de socialização. E a partir do conhecimento do próprio estilo de comportamento motivacional, entender o processo motivacional desses mesmos catequizandos, isto é, como é o processo dos catequizandos em satisfazer as próprias necessidades.

4º Comunicação do Mistério a partir das disposições pessoais e da motivação destas numa perspectiva inculturada. O catequista conhecendo seu próprio estilo motivacional, sua formação e processo motivacional próprio, vai poder estimular os catequizandos a mergulharem no Mistério do Amor de Deus revelado em Jesus Cristo a partir de próprias interrogações destes. O catequista procura auxiliar o catequizando a ver no Mistério a satisfação de suas necessidades, das suas motivações mais profundas, ver no Mistério a sua auto-realização como ser humano na plenitude do Amor Entrega na comunhão da Trindade. Numa perspectiva de inculturação, o catequista nesse processo de conhecer a disposição pessoal formada na cultura procura descobrir as “sementes do Verbo” e auxiliar o catequizando a discernir os valores evangélicos, em primeiro lugar o amor como Entrega. Nesse processo de inculturação também denunciar as estruturas de dominação, para que o catequizando purifique sua forma de amar.

5º Vivência do Mistério em Igreja. A finalidade da catequese é a consciência de que a vivência em comunidade deve refletir a essência do Mistério e sua vivência integral. Vivência comunitária dos três eixos da unidade pastoral: o Evangelho que anuncia o Mistério e forma a disposição pessoal para o amor-entrega, a experiência do Mistério do amor na Liturgia e na convivência amorosa dentro de cada comunidade. O catequizando experimentando a Entrega de Deus na pessoa do catequista e dos outros cristãos se sentirá impelido a viver em comunidade e a se tornar um outro evangelizador. Esse processo cria vínculos eternos que constroem a comunidade, a Igreja.



[1] Cf. PESENTI, G. G. Mistagogia. In: BORRIELLO, L. et alli. (Orgs.). Dicionário de mística. São Paulo: Loyola; Paulus, 2003, p. 702.

[2] Cf. Bento XVI. Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis: sobre a Eucaristia como fonte e ápice da vida e da missão da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2007, 64.

[3] CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Diretório Geral para a Catequese, 1997. São Paulo: Loyola, 2003, 107.

[4] Cf. Diretório Geral para a Catequese 41.

[5] Cf. Diretório Geral para a Catequese, 85.

[6] Cf. Gaudium et Spes, 22.

[7] Cf. LÓPEZ. J. A. U. Mistério. In: PEDROSA, V. M. D. et alli. (Org.). Dicionário de catequética. São Paulo: Paulus, 2004, p. 759.

[8] SARTORE, D. Sinal/símbolo. In: SARTORE, D.; TRIACCA, A. M. (Orgs.). Dicionário de liturgia. São Paulo: Paulinas, 1992, p. 1150.

[9] Cf. Diretório Geral para a Catequese, 90-91.

[10] Cf. Diretório Geral para a Catequese, 66.

[11] Cf. Diretório Geral para a Catequese, 130.

Nenhum comentário:

Postar um comentário