quarta-feira, 17 de março de 2010

MISTAGOGIA MOTIVACIONAL: UMA PROPOSTA DE METODOLOGIA CATEQUÉTICA INCULTURADA Inculturação

3. Uma proposta de metodologia catequética inculturada

A inculturação é algo primordial no processo de Evangelização da América Latina, bem como no mundo inteiro. Se o é na Evangelização, não deixa de sê-lo na Catequese.

Porém, duas dificuldades surgem quando o assunto é inculturação do Evangelho. De um lado não se tem a noção correta de cultura e de como iniciar ou manter um diálogo com os membros de determinada cultura, por outro lado, como a inculturação visa levar as pessoas ao encontro com o Evangelho, com o próprio Deus revelado em Jesus Cristo, nesse ponto não se tem a correta dimensão do Mistério a ser proposto.

O Papa Paulo VI, dez anos após o encerramento do Concílio Vaticano II afirmava que o drama da nossa época é a ruptura entre o Evangelho e a Cultura.[1] Por isso, ao propormos a Mistagogia Motivacional como metodologia catequética inculturada, queremos propor uma metodologia que parta do habitus do ser humano que faz cultura e ajude-o a mergulhar no Mistério Revelado.

O papa João Paulo II conceitua inculturação como “a encarnação do Evangelho nas culturas autóctones e, ao mesmo tempo, a introdução dessas culturas na vida da Igreja”.[2] Nesse processo de inculturação do Evangelho, o missionário deve servir o ser humano revelando-lhe o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo.[3] Pela inculturação a Igreja encarna o Evangelho nas diversas culturas e assume o que de bom nelas existe, e renovando-as a partir de dentro.

A inculturação não é assunto somente para especialistas, ela acontece na vida da Igreja na América Latina e no mundo, por isso, apresentamos a seguir como a Catequese vive esse processo de inculturação e como a Mistagogia Motivacional pode auxiliar nesse processo.

A Encarnação do Verbo é o paradigma da inculturação do Evangelho, e por conseqüência da catequese inculturada. Jesus assume a cultura, a língua e os costumes de um povo, e através de uma linguagem que atinge os pequeninos vai ao essencial da vida para anunciar a presença do Reino de Deus. Anuncia não somente por palavras, mas também pelo testemunho. Jesus é o modelo de pedagogia para a catequese inculturada.[4]

Hoje se pede catequistas que inculturem o Evangelho reconhecendo as “sementes do Verbo”, respeitando a liberdade dos catequizandos e os levem à adesão pessoal e definitiva à pessoa de Cristo. De tal modo que a Boa Nova do Reino de Deus seja comunicada por um testemunho alegre que tenha por conseqüência a transformação da realidade.[5]

Um catequista que queira inculturar o Evangelho precisa conhecer o Mistério Revelado e também conhecer a cultura na qual ele está inserido.

A realidade cultural hoje está marcada pela mundialização da cultura e pela globalização econômica. Porém, não há diferença essencial entre os homens e as culturas, há sempre algo de nós no outro, porque a humanidade é uma só e existe uma Cultura em meio a tantas culturas, o universal está no interior do particular. O catequista é convidado a entender que existe uma Cultura, isto é, uma identidade comum e ao mesmo tempo existe culturas que permitem a vivência das diferenças.[6]

O catequista no processo de inculturação do Evangelho precisa respeitar a inteligência do catequizando, compreendendo sua formação e seus relacionamentos. Entender que identidade e alteridade são ligadas e existem sempre numa relação dialética. A identidade conhece variações, como a cultura em si, a identidade se constrói, se desconstrói e se reconstrói segundo as situações.[7]

Portanto, nesse processo o catequista precisa entender o processo de formação cultural dos catequizandos, entender a dialética entre o cultural, os costumes e valores particulares adquiridos no processo de formação das disposições pessoais na sua família e nos grupos sociais a que pertence, e o Cultural, isto é, a identidade do povo ao qual ele pertence, o substrato cultural.

Porém, tudo isto é um processo extremamente complexo. Por isso, buscamos neste trabalho um fator que possa unir o cultural e o Cultural, unir a identidade cultural do catequizando e a etnia na qual ele está inserido e como fazer com que o Evangelho possa penetrar nessa identidade. Afirmamos, que o princípio meta-metodológico do amor-entrega permeia o cultural, o Cultural e o Evangelho, e através desse princípio o catequista pode ajudar o catequizando a partir de sua identidade cultural e de suas motivações mais profundas mergulhar no Mistério. Nesse contato com o Evangelho também identificar os traços de dominação presente na formação cultural. Pois, toda cultura deve estar subordinada “à perfeição humana, ao bem da comunidade e da humanidade inteira”.[8]

Obviamente, por primeiro é o catequista que deve entender esse processo em si mesmo, entender que o próprio processo de socialização foi marcado pelo amor-entrega e identificar esse amor com o Mistério Revelado, para poder então auxiliar outros nesse mesmo processo de encontro com o Evangelho.

Para refletirmos sobre o amor-entrega como essência da inculturação, queremos tomar como paradigma o pensamento do Frei Bartolomeu de Las Casas para uma verdadeira inculturação do Evangelho na América Latina.
Las Casas parte do pressuposto que o único modo de evangelizar os indígenas é de forma branda, suave, razoável e doce. Por isso, denuncia o erro dos colonizadores e dominadores que queriam oprimir para evangelizar e deseja também a estes que descubram o caminho da retidão e da solidariedade. Frei Bartolomeu afirma que não há outro método senão aquele que Cristo ensinou e essa lei de Cristo deve ser obedecida, pois esse meio ou método deve ser comum a todos os homens do mundo, sem nenhuma discriminação, e “deve ser seguido com todos o mesmo e único modo de pregar”.[9]
Las Casas propõe sua tese fundamental:
O modo estabelecido pela divina Providência para ensinar aos homens a verdadeira religião foi único, exclusivo e idêntico para todo o mundo e todos os tempos, a saber: com razões persuadir o entendimento e com suavidade atrair e exortar a vontade. E deve ser comum a todos os habitantes da terra sem descriminação alguma em razão de seitas, erros ou costumes depravados.[10]
O motor da missão, bem como da inculturação do Evangelho, é o amor, de tal modo que seja o único critério para que tudo seja feito ou não.[11] O missionário deve ser o homem da caridade, anunciar o Deus que ama os seres humanos e levar a abertura e a amizade a todos os homens, em especial os pobres, superando fronteiras e divisões de raça, casta ou ideologia.[12]
Na tarefa da inculturação sempre se deve respeitar a liberdade daqueles aos quais vamos ao encontro com a evangelização. Apresentar o Mistério cristão de modo íntegro através da palavra e do exemplo, de modo afável, humilde e doce. Esse modo de evangelizar procura atrair a vontade, motivar os ouvintes, de tal modo que eles se abram ao Mistério Revelado, pois, na “tarefa da inculturação, o sentido e o conteúdo da fé só são autenticamente anunciados, se respaldados pela caridade, pelo amor, pelo testemunho, por uma experiência concreta da fé que se anuncia”.[13]
Entretanto, o amor como Entrega não é somente o modo de evangelizar, mas o centro do conteúdo, o princípio meta-metodológico da transmissão do Mistério. Hoje há uma certa convergência dos povos na recusa da violência, no respeito pela pessoa humana, no desejo de liberdade e justiça, [14] em ver o pobre, o realmente necessitado como destinatário da ação amorosa. Essa disposição de alma presente em cada pessoa humana é o ponto de partida para a inculturação do Evangelho. O missionário ou o catequista conhecendo como o seu catequizando ama, como ele quer o bem ao outro, a partir daí o catequista apresentará o Mistério cristão. Demonstrando que essa motivação primeira do ser humano, o amor-entrega, é o centro também de toda a Revelação. A evangelização acontecerá no encontro entre o amor presente na disposição interior do catequizando e do amor como centro do Mistério Revelado, lembrando sempre que o catequista já deve conhecer esse amor presente nele mesmo.


[1] Cf. PAULO VI. Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, 1975. São Paulo: Paulinas, 1986, 20.

[2] JOÃO PAULO II. Carta encíclica Slavorum Apostoli, 1985. São Paulo: Paulinas, 1985, 21.

[3] Cf. JOÃO PAULO II. Carta encíclica Redemptoris Missio: Sobre a validade permanente do mandato missionário, 1990. São Paulo: Paulinas, 1991, 2.

[4] Cf. CONSEJO EPISCOPAL LATINOAMERICANO DEPARTAMENTO DE CATEQUESIS. Hacia una catequesis inculturada: Memorias de la II semana latinoamericana de catequesis Caracas. SANTAFÉ DE BOGOTÁ, ENERO 1995. Disponível em: <://www.scala-catequesis.org> Acesso em 22 de maio de 2007, 11:58:26, 91.

[5] Cf. Hacia una catequesis inculturada: Memorias de la II semana latinoamericana de catequesis Caracas, 42-43.

[6] Cf. CUCHE, D. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru: EDUSC, 2002, p. 242-243.

[7] Cf. RIBEIRO, D. O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 183 e 196.

[8] Cf. CONSTITUIÇÃO Pastoral Gaudium et Spes, 1965. In: COMPÊNDIO VATICANO II: Constituições, decretos, declarações. KLOPPENBURG, B. (Org.). 18ª ed. Petrópolis: Vozes, 1986, 59.

[9] LAS CASAS, B de. Único modo de atrair todos os povos à verdadeira religião. São Paulo: Paulus, 2005 (Obras completas I), p. 219.

[10] LAS CASAS, B de. Único modo de atrair todos os povos à verdadeira religião, p. 61.

[11] Cf. JOÃO PAULO II. Carta encíclica Redemptoris Missio: Sobre a validade permanente do mandato missionário, 1990. São Paulo: Paulinas, 1991, 60.

[12] Cf. Redemptoris Missio 89.

[13] BRIGHENTI, A. Por uma evangelização inculturada: Princípios pedagógicos e passos metodológicos. São Paulo: Paulinas 1998, p. 44.

[14] Redemptoris Missio, 86.

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