quarta-feira, 17 de março de 2010

MISTAGOGIA MOTIVACIONAL: UMA PROPOSTA DE METODOLOGIA CATEQUÉTICA INCULTURADA Introdução

MISTAGOGIA MOTIVACIONAL:

UMA PROPOSTA DE METODOLOGIA CATEQUÉTICA INCULTURADA

Heraldo de Moraes (Pe. Micael de Moraes, sjs)

Resumo

A Mistagogia Motivacional procura a partir do princípio meta-motivacional do amor como Entrega possibilitar ao catequista uma visão orgânica do Mistério e propiciar o encontro do catequizando com Deus a partir da motivação de sua disposição pessoal formada no processo de socialização na sua cultura.

Palavras-chave: Mistagogia, motivação, cultura, metodologia, catequese.

Abstract

The Motivational Mystagogy demand from the metamotivational principle of the love as Delivery enable the catechist a vision of organic Mystery and provide the meeting of those receiving catechesis with God from the motivation of their disposal personnel formed in the process of socialization in their culture.

Keywords: Mystagogy, motivation, culture, methodology, catechesis.

Introdução

A presente tese trabalha o problema metodológico da catequese sob uma perspectiva mistagógica. Na atualidade, encontramos catequistas que não estão preparados para catequizar um público advindo de um mundo globalizado e insensível à simbologia sacramental. Surge a necessidade de formar catequistas que saibam articular o Mistério Revelado com as necessidades mais profundas dos catequizandos numa experiência de fé.

No processo da catequese o catequista depara-se com o problema metodológico. Em primeiro lugar como articular metodologicamente o depositum fidei, isto é, a Revelação, a Liturgia e a vida no Espírito. Em segundo lugar o problema da articulação da educação na fé com o catequizando e sua cultura e por fim a conjugação da motivação desse mesmo catequizando que brota da cultura com o processo da educação na fé.

Na catequese há uma diversidade de metodologias, métodos e técnicas, porém nota-se catequistas despreparados para articular esses elementos, bem como tornar o encontro catequético agradável e eficaz tanto para o próprio catequista como para os catequizandos.

Com a tese se pretende comprovar a necessidade de uma metodologia catequética que ajude o catequizando a penetrar no Mistério, mas que ao mesmo tempo tal metodologia se preocupe com a realidade cultural desse mesmo catequizando.

Surge então a pergunta: Como se ter uma metodologia catequética que se preocupe com a motivação do catequizando, porém sem menosprezar o Mistério Revelado? Como se ter uma metodologia catequética que possibilite ao Mistério atingir o centro da decisão humana?

Procuramos responder a essa pergunta através da Mistagogia Motivacional, isto é, um processo metodológico que ao mesmo tempo se preocupe em conduzir o catequizando ao conhecimento, experiência e vivência do Mistério, todavia o faz a partir da sua disposição pessoal formada na cultura. O Mistério é o objeto da catequese e a missão do catequista é conduzir os catequizandos a imergirem-se nesse Mistério. A Mistagogia introduz o catequizando na linguagem simbólico-sacamental e procura transmitir o conteúdo do Mistério de forma orgânica e sistemática.

A metodologia catequética mistagógica-motivacional parte das interrogações que surgem da disposição pessoal do catequizando e que o estimulam a um justo desejo de transformar a vida a luz do Evangelho. A Mistagogia Motivacional faz a conexão entre a natureza humana com suas aspirações e o Mistério do Amor de Deus que satisfaz plenamente o coração humano.

Neste trabalho procuramos em primeiro lugar construir uma meta-metodologia, isto é, uma metodologia para construir outras metodologias. Buscar um princípio meta-metodológico comum ao Mistério e à motivação humana e a partir desse princípio estabelecer a Mistagogia Motivacional que auxilie na introdução do catequizando no Mistério.

Deduzimos por este trabalho que o Amor como Entrega[1] é o princípio meta-metodológico presente no Mistério e na motivação humana.



[1] A escolha do vocábulo “entrega” se faz porque significa melhor a autocomunicação de Deus na criação e na salvação da humanidade e também a atitude de entrega amorosa do ser humano aos irmãos e a Deus. Nisto consiste o Mistério, no seu amor, Deus entregou seu Filho ao mundo, para que a humanidade pudesse assim se entregar ao Pai pelo Filho no Espírito Santo. Como no sentido paulino: “E vós maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou [paredwken] por ela” (Ef. 5, 25).

MISTAGOGIA MOTIVACIONAL: UMA PROPOSTA DE METODOLOGIA CATEQUÉTICA INCULTURADA Amor Entrega

1. O princípio meta-metodológico do Amor como Entrega

1.1 O princípio meta-metodológico na Pedagogia Divina

A Mistagogia Motivacional tem por modelo a Pedagogia Divina. Pedagogia que é a “forma histórica que Deus seguiu ao longo do tempo para dar-se a conhecer, manifestar seu projeto libertador e chegar ao encontro com a humanidade”.[1] A Santíssima Trindade é uma comunidade perfeita de amor eterno e oblativo, esse amor transborda na criação e chama o ser humano a vida como imagem de Deus, isto é, homem e mulher capazes de serem fecundos, de se entregar um ao outro no amor verdadeiro. Mesmo quando o pecado entra no coração humano, Deus não desiste do ser humano e em Abraão Deus quer chamar o povo a entregar-se a Ele em sua fé. No êxodo o povo faz a experiência de libertação da dominação egípcia e no deserto passa ela experiência da Aliança e da lei, para aprender a amar. Pelos profetas Deus promete a Aliança de amor inscrita no coração humano, Aliança a ser concretizada pelo Messias que vem para salvar o povo dos Pobres e derramará o Espírito para dar um coração humano que saiba amar e não fechado em si mesmo.

Jesus revela o Mistério do amor do Pai em toda a sua existência, em suas palavras, em sua maneira de ser e de se portar.[2] O encontro com Jesus é encontro com o Mistério de Deus que se revela. Como, por exemplo, no itinerário de fé do grupo apostólico, o encontro com os pecadores, daqueles que estão sob a dominação e excluídos do convívio do amor (cf. Mc 2, 17). Foi no encontro pessoal que a disposição interior dos interlocutores foi motivada por Jesus, como Zaqueu (cf. Lc 19,8), que respondendo ao convite de mudar sua disposição pessoal em vista do Reino de Deus. Jesus também se encontrou com a incompreensão humana do Mistério revelado nele, como nos seus conterrâneos nazarenos (cf. Mc 6, 1-6). O cume da obra de salvação é a Entrega de Cristo a seu Pai, o fechamento do ser humano a Deus é sanado pela entrega salvadora de Jesus em seu sacrifício, entrega que atrai e atrairá o ser humano a Deus (cf. Jo 12, 32). Em sua pedagogia de amor ou metodologia mistagógico-motivacional, Jesus leva as pessoas a se abrirem a esta entrega e a viverem em suas vidas. A Igreja procura continuar essa metodologia mistagógica-motivacional.

O anúncio do Evangelho pelos apóstolos favorece a constituição de comunidades, nas quais os seguidores de Jesus vivam o amor mútuo. A Igreja que submerge suas raízes no judaísmo vai adentrando progressivamente no mundo greco-romano. As conversões acontecem e até metade do século II não havia uma instituição especializada para catequizar os convertidos. No século III consolida-se o catecumenato nas principais Igrejas e no século IV surgem as catequeses mistagógicas dos Padres. No processo mistagógico, a Sagrada Escritura narra a evolução desse Mistério no tempo e no espaço, os ritos celebram o Mistério de Deus e inserem o batizado nesse mesmo Mistério, na História da Salvação, e por fim os sacramentos prolongam esse Mistério na vida do fiel (vida moral) e abrem-no à esperança escatológica. Tendo por centro Jesus Cristo como revelação do desígnio amoroso de Deus. Santo Agostinho na sua obra De Catechizandis Rudibus conclui que o catequista se inspire no modo de agir de Deus na revelação de seu plano de amor, na paciência e na compreensão.[3] Com a inserção cristã em todo o tecido da vida civil e cultural, a aproximação Igreja e Estado a partir de 313 e o favor concedido pelos imperadores ao Cristianismo enfraquecerá as motivações que levam ao batismo e por conseqüência o catecumenato começa a desaparecer. A tutela do Estado leva a uma catequese que frisa muito mais a dominação e a submissão, do que a convivência no amor. Uma catequese superficial e pobre de conteúdo que torna o povo cada vez mais ignorante, preso às superstições numa religião mágica. O êxito da Reforma Protestante mostrou a necessidade da instrução na fé das crianças e dos adultos. O Concílio de Trento obriga bispos a providenciar a catequese nas paróquias, caracterizada pelo processo da memorização. No Brasil a catequese nesse período seguia duas linhas, ou a catequese missionária voltada para a conversão dos infiéis ou a catequese tradicional existente em Portugal na época do descobrimento.[4] O século XX é caracterizado pela metodologia catequética, como por exemplo, o método indutivo ou método de Munique, a catequese querigmática, ou no pós-vaticano segundo uma catequese que quer ter por centro o ser humano. No Brasil após as Conferências de Medellín e Puebla, surge o Documento 26 da CNBB, Catequese Renovada, que apresenta a catequese como educação permanente da fé para a comunhão e participação na comunidade, de modo que o catequizando possa unir fé e vida.

Neste início do século XXI, a catequese mais do que se questionar sobre qual metodologia a seguir, tomada como um conjunto de métodos, precisa questionar-se sobre uma meta-metodologia, isto é, um quadro referencial que insira as várias metodologias dentro do panorama histórico e teórico da catequese. Obter não somente um princípio metodológico, que perpassa todo o conteúdo da catequese, mas obter o princípio meta-metodológico das diversas metodologias, que este trabalho considera como a pedagogia do amor ou de Entrega, como princípio único da Revelação de Deus na História.

1.2 Análise sócio-antropológica da dimensão de Entrega do ser humano

Numa perspectiva sócio-antropológica analisamos neste item o amor como Entrega, a partir da parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), bem como seu contraposto que é a dominação, a partir da parábola do devedor implacável (cf. Mt 18, 21-35) e da parábola dos vinhateiros homicidas (Mt 21, 33-46; Mc 12, 1-12; Lc 20, 9-19), para obtermos um quadro de análise sócio-antropológico do amor como Entrega, isto é, do princípio meta-metodológico da Mistagogia Motivacional.

O Samaritano viu o necessitado, diferentemente do sacerdote e do levita, move-se de compaixão,[5] sobre as feridas põe azeite para suavizar e vinho para desinfetar, o conduz a uma pousada e cuida daquele homem necessitado. Coloca-se a disposição ao recomendar ao dono da pousada que cuide dele e diz “o que gastares a mais, em meu regresso te pagarei” (Lc 10, 35). O amor faz o Samaritano mover-se de compaixão, entregar-se ao cuidado do necessitado, sem se preocupar com barreira religiosa ou política. Um amor que leva o Samaritano a entregar-se ao outro, amar como Entrega que gera vida no próximo, estabelece vínculo, que tem peso eterno e é a essência da Aliança com Deus. Isto é o fazer a vontade de Deus para conseguir a vida eterna, conforme a resposta do jurista. Por fim, o homem livre ama o próximo necessitado. O homem livre consciente de sua própria solidão, por princípio sabe-se necessitado do amor divino e da ajuda de outras pessoas, ele tem consciência de sua própria debilidade. O homem livre sabe-se um necessitado, um pobre. O próprio Jesus identificou em si esta necessidade de ser amado por um ser humano (cf. Jo 21, 16). Esta consciência da própria pobreza é que faz com que o Samaritano vá ao encontro da necessidade do próximo, sejam tais necessidades corporais, psicológicas, afetivas ou espirituais. O homem que ama procura então, satisfazer a necessidade do outro, não suas vontades, mas as suas verdadeiras necessidades, isto é, aquelas destinadas a propiciar a maturidade humana. Concluindo, o homem livre sabe-se pobre, vê o próximo, pressupõe nele o amor e vai ao encontro de sua necessidade, para que este também se torne um homem livre e possa amar. O amor como Entrega consiste em primeiro lugar em ver, em estar atento à realidade do outro. Depois se mover de compaixão, todo o nosso ser estar voltado para auxiliar o outro em sua real necessidade, doar a nossa vida, tempo e qualidades para satisfazer as verdadeiras necessidades do próximo, para que o necessitado tenha vida e possa tornar-se assim um ser humano livre. É preciso estar sempre à disposição, estar presente a cada instante na vida do necessitado. Mas nesse processo estar conscientes do sofrimento que isso gera e assumir tal sofrimento na Cruz do Senhor Jesus Cristo. A Entrega gera vínculos que perduram pela eternidade, uma aliança eterna em Cristo que satisfaz o coração humano. Esse amor-entrega, que procura fazer o bem (cf. At 10, 38), é graça de Deus e é o fundamento da motivação humana, isto é, do mover do coração humano (cf. Lc 10, 33).

Se o amor é a tese, a dominação é antítese do processo da implantação do Reino. Para definir a dominação tomamos por paradigmas as parábolas do devedor implacável (Mt 18, 21-35) e a dos vinhateiros homicidas (Mt 21, 33-46; Mc 12, 1-12; Lc 20, 9 -19). A dominação surge no coração do ser humano que, não aprendendo amar e ser amado, não aceita a sua condição de necessitado e encastela-se. O dominador procura subordinar o outro, absorvê-lo, numa busca de uma falsa união através da hipocrisia. Essa dominação, que pode se transvestir de amor, caracteriza-se principalmente em instrumentalizar o outro na falsa tentativa de satisfazer as próprias necessidades. Tudo isso gera nas relações humanas desconfiança e por fim separação.

1.3 A dimensão de Entrega da Pedagogia Divina na Revelação do Mistério: uma análise teológico-sistemática

A finalidade da catequese é ensinar o catequizando a vivenciar o Mistério Revelado da comunhão da Trindade oferecida ao ser humano. A missão da catequese é ensinar a amar, de tal modo que o catequizando no equilíbrio entre corpo e espírito no ato de amor, eduque o amor eros, para que seja base para que o amor-ágape possa acontecer. Eros e ágape, amor-entrega que como essência da Trindade e da Revelação, torna-se princípio meta-metodológico de uma catequese inculturada.

A Entrega é essencial à vida íntima da Trindade e está impregnada na criação. Jesus, Deus e Homem, é a autocomunicação, a auto-entrega encarnada de Deus e torna a Entrega a lei da Nova Criação inaugurada por Ele no Espírito.[6] O relacionamento de Entrega entre Pai e Filho na Trindade agora pode ser participado por cada ser humano pela graça. O centro da Revelação é pois Deus que em seu Filho e no Espírito comunica a si mesmo, se Entrega, para que o ser humano possa comungar da essência da Trindade. O Espírito leva o crente a viver a Lei de Cristo cumprida a partir da liberdade do serviço mútuo. Por fim, o ser humano é chamado a participar pela graça recebida nos sacramentos da comunhão da Trindade formando a comunhão dos chamados, a Igreja.

O acesso a essa comunhão nos é propiciada por Jesus Cristo no Espírito, neles podemos viver a Entrega perfeita ao Pai. Afirmamos que especificamente a participação nessa Entrega se dá através do sacerdócio de Cristo, isto é, através da participação na Entrega eterna do Ressuscitado ao Pai no Espírito. A transformação obtida por Cristo por sua Entrega ao Pai está aberta à participação de todos os seres humanos, basta aderir a Cristo na obediência da fé (cf. Hb 5, 9). Os fiéis pois são consagrados no sacramento do Batismo como sacerdotes batismais, isto é, associados ao estatuto ou condição sacerdotal de Jesus Cristo, à sua Entrega obediente ao Pai.[7] A Liturgia é o momento do exercício do sacerdócio de Cristo. A Liturgia é celebração do Mistério Pascal, atualização do amor transformante de Deus no interior de cada fiel. Mistério Pascal da paixão, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo que indica antes de tudo o fato da obediência à vontade do Pai que teve como resposta a glorificação de Jesus (cf. Fl 2, 6-11), pois foi ouvido graças à sua piedade (cf. Hb 5,7), esse aniquilamento e glorificação constitui o cume de sua existência e de toda a história da bondade e da misericórdia de Deus em seu amor pelo homem.[8]

Na auto-entrega de Jesus a relação do ser humano com Deus e com o próximo une-se no novo culto. A vida cristã passa a ser um culto oferecido a Deus, o fiel unido à auto-oferta de Jesus na liturgia está habilitado a oferecer a própria vida a Deus no amor ao próximo, torna a sua própria vida um sacrifício de louvor (cf. Rm 12, 1). Essa participação torna o ser humano um sacrifício vivo, um sacerdote real que oferece a Deus sacrifícios agradáveis através de obras de amor.

Concluímos este item com a afirmação de Karl Rahner, que resume de forma magistral a relação da dimensão de Entrega presente em Deus e no ser humano:

O homem chega realmente a si mesmo em genuína autorealização somente quando ousa colocar-se radicalmente em favor dos outros. Ao fazê-lo, acolhe (atemática ou explicitamente) o que entende por Deus enquanto horizonte, garante a radicalidade deste amor, o qual em autocomunicação (existencial e historicamente) se faz o espaço da possibilidade desse amor. Este amor entende-se de maneira íntima e social e, na radical unidade destes dois momentos, ele é o fundamento e a essência da Igreja.[9]



[1] CELAM. Manual de catequética. São Paulo: Paulus, 2007, p. 211.

[2] Cf. CATECISMO da Igreja Católica, 1997. Petrópolis: Vozes, 1998, 516.

[3] Passim. AGOSTINHO. A instrução dos catecúmenos: Teoria e prática da catequese. Petrópolis: Vozes, 2005.

[4] Cf. AZZI, R. Os primórdios da catequese: Arranjos do período colonial e imperial. In: PASSOS, M. (Org). Uma História no plural: 500 anos do movimento catequético brasileiro, p. 16-24.

[5] Do grego splagcnizomai, comover-se. A palavra motivação advém do latim movere, que significa mover.

[6] Cf. KELLER, H. Cristologia. In: SCHNEIDER, T. (Org.). Manual de dogmática. 2ª ed. V.1. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 354.

[7] Cf. FABRIS, R. Carta aos hebreus. In: As cartas de Paulo III. São Paulo: Loyola, 1992, (Bíblica Loyola 6), p. 458

[8] Cf. MARTÍN, Julián López. No Espírito e na Verdade 1: Introdução teológica à liturgia. Petrópolis: Vozes, p. 160.

[9] Curso fundamental da fé. São Paulo: Paulinas, 1989, p. 527.

MISTAGOGIA MOTIVACIONAL: UMA PROPOSTA DE METODOLOGIA CATEQUÉTICA INCULTURADA Motivação

2. Uma perspectiva motivacional para a metodologia catequética

Na história constatamos como a Pedagogia Divina buscou levar os seres humanos a imergir no Mistério Revelado a partir das disposições pessoais. Queremos refletir sobre o processo da motivação da disposição pessoal e constituir uma perspectiva motivacional para a metodologia catequética.

Na análise da disposição pessoal do ser humano, é necessária uma visão de ser humano uno de corpo e alma, pois o ser humano é motivado na sua totalidade. Disposição pessoal formada no processo de socialização, que para Pierre Bourdieu tal processo seria a formação do habitus, isto é, “sistemas de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio gerador e estruturador das práticas e das representações”.[1] No processo de socialização o indivíduo vai adquirindo inclinações para perceber, sentir, fazer e pensar, tais inclinações são interiorizadas a modo de disposições pessoais. E a catequese faz parte desse processo de socialização. A graça também age nesse processo. Karl Rahner afirma que a própria disposição pessoal é atuação da graça, é a graça que age sob a forma de disposição.[2]

A motivação é a força interior que leva o individuo a agir. A motivação é um estado interno que ativa ou movimenta, representada por todas as condições de esforço ou desempenho interno, descrita como aspirações, desejos, estímulos, impulsos etc. [3] No nosso caso, motivar é suscitar na disposição pessoal o desejo de imergir no Mistério do amor de Deus. A motivação é algo intrínseco, é um processo interno ao indivíduo. O motivo leva o indivíduo a tomar a decisão de se abrir à satisfação das próprias necessidades, das necessidades básicas até a sua auto-realização, conforme Maslow.[4]

Auto-realização que admitimos neste trabalho como amor-entrega. O agente motivador consegue ajudar na motivação do outro na medida que conhece o próprio estilo de comportamento motivacional, e entende assim o processo da motivação da própria disposição pessoal e ajudar o outro a se abrir na satisfação das próprias necessidades. O agente motivador através de uma sensibilidade interpessoal evita assim qualquer tentativa de motivar o outro através de recompensa ou punição numa atitude dominadora.

O encontro com o Mistério do amor de Deus na fé faz com que, “aquela ânsia, freqüentemente inconsciente e sempre limitada, de conhecer a verdade sobre Deus, sobre o próprio homem e sobre o destino que o espera. É como uma água pura que reaviva o caminho do homem peregrino em busca de seu lar”.[5] A motivação é ação da graça de Deus que antecede e ajuda nos atos humanos. O Espírito Santo, através do dom da fé, move o coração humano e o dirige para Deus, dando-lhe a graça de consentir e de crer na verdade.[6]

Considerando a motivação das pessoas, isto é, o que move suas disposições pessoais, a catequese procura penetrar nas pessoas, estimulando uma atitude de radical conversão a Deus de tal modo que aconteça um pleno amadurecimento do amor.[7] Numa perspectiva de catequese inculturada, todo esse processo leva em conta a pessoa e sua disposição, mas também o Mistério revelado ao qual a pessoa é chamada a imergir através da graça como veremos a seguir.



[1] Esboço de uma teoria da prática. In: ORTIZ, R. (Org.). Pierre Bourdieu. São Paulo: Ática, 1994, p. 60-61.

[2] Cf. RAHNER, K. Novo sacerdócio. São Paulo: Herder, 1968, p. 210.

[3] Cf. MONTEIRO LOPES, T. de V. Motivação no trabalho. Rio de Janeiro: Ed. da Fundação Getúlio Vargas, 1980, p. 10.

[4] Cf. MAITLAND, I. Como motivar pessoas.São Paulo: Nobel, 2002, p. 7-10.

[5] Cf. CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretório Nacional de Catequese, 2005. Brasília: CNBB, 2006, 55.

[6] Cf. Diretório Nacional de Catequese 55.

[7] Cf. Diretório Nacional de Catequese 204.

MISTAGOGIA MOTIVACIONAL: UMA PROPOSTA DE METODOLOGIA CATEQUÉTICA INCULTURADA Inculturação

3. Uma proposta de metodologia catequética inculturada

A inculturação é algo primordial no processo de Evangelização da América Latina, bem como no mundo inteiro. Se o é na Evangelização, não deixa de sê-lo na Catequese.

Porém, duas dificuldades surgem quando o assunto é inculturação do Evangelho. De um lado não se tem a noção correta de cultura e de como iniciar ou manter um diálogo com os membros de determinada cultura, por outro lado, como a inculturação visa levar as pessoas ao encontro com o Evangelho, com o próprio Deus revelado em Jesus Cristo, nesse ponto não se tem a correta dimensão do Mistério a ser proposto.

O Papa Paulo VI, dez anos após o encerramento do Concílio Vaticano II afirmava que o drama da nossa época é a ruptura entre o Evangelho e a Cultura.[1] Por isso, ao propormos a Mistagogia Motivacional como metodologia catequética inculturada, queremos propor uma metodologia que parta do habitus do ser humano que faz cultura e ajude-o a mergulhar no Mistério Revelado.

O papa João Paulo II conceitua inculturação como “a encarnação do Evangelho nas culturas autóctones e, ao mesmo tempo, a introdução dessas culturas na vida da Igreja”.[2] Nesse processo de inculturação do Evangelho, o missionário deve servir o ser humano revelando-lhe o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo.[3] Pela inculturação a Igreja encarna o Evangelho nas diversas culturas e assume o que de bom nelas existe, e renovando-as a partir de dentro.

A inculturação não é assunto somente para especialistas, ela acontece na vida da Igreja na América Latina e no mundo, por isso, apresentamos a seguir como a Catequese vive esse processo de inculturação e como a Mistagogia Motivacional pode auxiliar nesse processo.

A Encarnação do Verbo é o paradigma da inculturação do Evangelho, e por conseqüência da catequese inculturada. Jesus assume a cultura, a língua e os costumes de um povo, e através de uma linguagem que atinge os pequeninos vai ao essencial da vida para anunciar a presença do Reino de Deus. Anuncia não somente por palavras, mas também pelo testemunho. Jesus é o modelo de pedagogia para a catequese inculturada.[4]

Hoje se pede catequistas que inculturem o Evangelho reconhecendo as “sementes do Verbo”, respeitando a liberdade dos catequizandos e os levem à adesão pessoal e definitiva à pessoa de Cristo. De tal modo que a Boa Nova do Reino de Deus seja comunicada por um testemunho alegre que tenha por conseqüência a transformação da realidade.[5]

Um catequista que queira inculturar o Evangelho precisa conhecer o Mistério Revelado e também conhecer a cultura na qual ele está inserido.

A realidade cultural hoje está marcada pela mundialização da cultura e pela globalização econômica. Porém, não há diferença essencial entre os homens e as culturas, há sempre algo de nós no outro, porque a humanidade é uma só e existe uma Cultura em meio a tantas culturas, o universal está no interior do particular. O catequista é convidado a entender que existe uma Cultura, isto é, uma identidade comum e ao mesmo tempo existe culturas que permitem a vivência das diferenças.[6]

O catequista no processo de inculturação do Evangelho precisa respeitar a inteligência do catequizando, compreendendo sua formação e seus relacionamentos. Entender que identidade e alteridade são ligadas e existem sempre numa relação dialética. A identidade conhece variações, como a cultura em si, a identidade se constrói, se desconstrói e se reconstrói segundo as situações.[7]

Portanto, nesse processo o catequista precisa entender o processo de formação cultural dos catequizandos, entender a dialética entre o cultural, os costumes e valores particulares adquiridos no processo de formação das disposições pessoais na sua família e nos grupos sociais a que pertence, e o Cultural, isto é, a identidade do povo ao qual ele pertence, o substrato cultural.

Porém, tudo isto é um processo extremamente complexo. Por isso, buscamos neste trabalho um fator que possa unir o cultural e o Cultural, unir a identidade cultural do catequizando e a etnia na qual ele está inserido e como fazer com que o Evangelho possa penetrar nessa identidade. Afirmamos, que o princípio meta-metodológico do amor-entrega permeia o cultural, o Cultural e o Evangelho, e através desse princípio o catequista pode ajudar o catequizando a partir de sua identidade cultural e de suas motivações mais profundas mergulhar no Mistério. Nesse contato com o Evangelho também identificar os traços de dominação presente na formação cultural. Pois, toda cultura deve estar subordinada “à perfeição humana, ao bem da comunidade e da humanidade inteira”.[8]

Obviamente, por primeiro é o catequista que deve entender esse processo em si mesmo, entender que o próprio processo de socialização foi marcado pelo amor-entrega e identificar esse amor com o Mistério Revelado, para poder então auxiliar outros nesse mesmo processo de encontro com o Evangelho.

Para refletirmos sobre o amor-entrega como essência da inculturação, queremos tomar como paradigma o pensamento do Frei Bartolomeu de Las Casas para uma verdadeira inculturação do Evangelho na América Latina.
Las Casas parte do pressuposto que o único modo de evangelizar os indígenas é de forma branda, suave, razoável e doce. Por isso, denuncia o erro dos colonizadores e dominadores que queriam oprimir para evangelizar e deseja também a estes que descubram o caminho da retidão e da solidariedade. Frei Bartolomeu afirma que não há outro método senão aquele que Cristo ensinou e essa lei de Cristo deve ser obedecida, pois esse meio ou método deve ser comum a todos os homens do mundo, sem nenhuma discriminação, e “deve ser seguido com todos o mesmo e único modo de pregar”.[9]
Las Casas propõe sua tese fundamental:
O modo estabelecido pela divina Providência para ensinar aos homens a verdadeira religião foi único, exclusivo e idêntico para todo o mundo e todos os tempos, a saber: com razões persuadir o entendimento e com suavidade atrair e exortar a vontade. E deve ser comum a todos os habitantes da terra sem descriminação alguma em razão de seitas, erros ou costumes depravados.[10]
O motor da missão, bem como da inculturação do Evangelho, é o amor, de tal modo que seja o único critério para que tudo seja feito ou não.[11] O missionário deve ser o homem da caridade, anunciar o Deus que ama os seres humanos e levar a abertura e a amizade a todos os homens, em especial os pobres, superando fronteiras e divisões de raça, casta ou ideologia.[12]
Na tarefa da inculturação sempre se deve respeitar a liberdade daqueles aos quais vamos ao encontro com a evangelização. Apresentar o Mistério cristão de modo íntegro através da palavra e do exemplo, de modo afável, humilde e doce. Esse modo de evangelizar procura atrair a vontade, motivar os ouvintes, de tal modo que eles se abram ao Mistério Revelado, pois, na “tarefa da inculturação, o sentido e o conteúdo da fé só são autenticamente anunciados, se respaldados pela caridade, pelo amor, pelo testemunho, por uma experiência concreta da fé que se anuncia”.[13]
Entretanto, o amor como Entrega não é somente o modo de evangelizar, mas o centro do conteúdo, o princípio meta-metodológico da transmissão do Mistério. Hoje há uma certa convergência dos povos na recusa da violência, no respeito pela pessoa humana, no desejo de liberdade e justiça, [14] em ver o pobre, o realmente necessitado como destinatário da ação amorosa. Essa disposição de alma presente em cada pessoa humana é o ponto de partida para a inculturação do Evangelho. O missionário ou o catequista conhecendo como o seu catequizando ama, como ele quer o bem ao outro, a partir daí o catequista apresentará o Mistério cristão. Demonstrando que essa motivação primeira do ser humano, o amor-entrega, é o centro também de toda a Revelação. A evangelização acontecerá no encontro entre o amor presente na disposição interior do catequizando e do amor como centro do Mistério Revelado, lembrando sempre que o catequista já deve conhecer esse amor presente nele mesmo.


[1] Cf. PAULO VI. Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, 1975. São Paulo: Paulinas, 1986, 20.

[2] JOÃO PAULO II. Carta encíclica Slavorum Apostoli, 1985. São Paulo: Paulinas, 1985, 21.

[3] Cf. JOÃO PAULO II. Carta encíclica Redemptoris Missio: Sobre a validade permanente do mandato missionário, 1990. São Paulo: Paulinas, 1991, 2.

[4] Cf. CONSEJO EPISCOPAL LATINOAMERICANO DEPARTAMENTO DE CATEQUESIS. Hacia una catequesis inculturada: Memorias de la II semana latinoamericana de catequesis Caracas. SANTAFÉ DE BOGOTÁ, ENERO 1995. Disponível em: <://www.scala-catequesis.org> Acesso em 22 de maio de 2007, 11:58:26, 91.

[5] Cf. Hacia una catequesis inculturada: Memorias de la II semana latinoamericana de catequesis Caracas, 42-43.

[6] Cf. CUCHE, D. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru: EDUSC, 2002, p. 242-243.

[7] Cf. RIBEIRO, D. O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 183 e 196.

[8] Cf. CONSTITUIÇÃO Pastoral Gaudium et Spes, 1965. In: COMPÊNDIO VATICANO II: Constituições, decretos, declarações. KLOPPENBURG, B. (Org.). 18ª ed. Petrópolis: Vozes, 1986, 59.

[9] LAS CASAS, B de. Único modo de atrair todos os povos à verdadeira religião. São Paulo: Paulus, 2005 (Obras completas I), p. 219.

[10] LAS CASAS, B de. Único modo de atrair todos os povos à verdadeira religião, p. 61.

[11] Cf. JOÃO PAULO II. Carta encíclica Redemptoris Missio: Sobre a validade permanente do mandato missionário, 1990. São Paulo: Paulinas, 1991, 60.

[12] Cf. Redemptoris Missio 89.

[13] BRIGHENTI, A. Por uma evangelização inculturada: Princípios pedagógicos e passos metodológicos. São Paulo: Paulinas 1998, p. 44.

[14] Redemptoris Missio, 86.

MISTAGOGIA MOTIVACIONAL: UMA PROPOSTA DE METODOLOGIA CATEQUÉTICA INCULTURADA Princípios

4. A Mistagogia Motivacional

4.1 A Mistagogia

Mistagogia é um termo advindo da língua grega, composto do substantivo mystes (mistério), que talvez derive do verbo myo (fechar os lábios) e do verbo ago (conduzir). Significa a introdução de uma pessoa no conhecimento de uma verdade oculta.[1] Como já foi visto no primeiro capítulo, o Mistério é revelado na História cujo cume dessa Revelação é Jesus Cristo. Os Padres da Igreja foram iniciadores sábios dos convertidos ao Mistério Cristão. Esse processo de iniciação foi a Mistagogia cristã.

O itinerário mistagógico da catequese é estruturado em três fases. Em primeiro lugar a interpretação dos ritos à luz dos acontecimentos salvíficos, em especial o Mistério Pascal, em conformidade com a tradição viva da Igreja. Em segundo lugar, a catequese mistagógica procura introduzir no sentido dos sinais contidos nos ritos, através da educação da sensibilidade dos fiéis para a linguagem dos sinais e dos gestos, unidos à palavra, constituem o rito. Enfim, em terceiro lugar a mistagogia busca mostrar o significado dos ritos para a vida cristã em todas as suas dimensões, de tal modo que a própria vida vai sendo progressivamente transformada pelos mistérios celebrados. A finalidade da mistagogia é formar o fiel para uma fé adulta, que o torne capaz de testemunhar no mundo a esperança cristã que o anima.[2]

Nesta catequese “a narração (narratio) das maravilhas realizadas por Deus e a espera (expectatio) do retorno de Cristo acompanhavam sempre a exposição dos mistérios da fé”.[3] Tendo o Mistério de Cristo como centro de todos os demais elementos da Mistagogia.[4] Este encontro com Cristo é mediado pela linguagem simbólica, de tal modo que a comunhão com Jesus Cristo leva o catequizando a celebrá-lo nos sacramentos, em especial na Eucaristia.[5] O homem no encontro com Cristo pode assim tornar claro seu próprio mistério. O Mistério do Amor do Pai é assim manifestado plenamente ao homem e lhe descobre a sublimidade de sua vocação. Isso vale não somente aos cristãos, mas a todos os homens que procuram a Deus de coração sincero. Por Cristo, no Espírito Santo, o ser humano descobre sua vocação na vida divina e o enigma da morte e da dor é iluminado pelo Mistério Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo.[6]

Porém, vivemos hoje tempos de secularização, a nova evangelização necessita educar o ser humano nos valores pessoais e positivos do Mistério da pessoa humana a partir do Mistério do Amor de Deus revelado em Jesus Cristo.[7] O contexto da secularização dificulta também a entrada na trama simbólica e ao acesso à salvação pelas vias rituais. Torna-se necessário uma educação para o simbólico, com uma progressiva iniciação às “atitudes interiores e exteriores que caracterizam a vida litúrgica”.[8]

Atualmente, torna-se necessário auxiliar as pessoas no processo de conhecer o mistério do Reino de Deus, suas promessas e exigências. Para que isso se efetive, a Igreja tem no Catecumentato batismal o modelo de toda a catequese, os elementos da mistagogia catecumenal deve inspirar a catequese e o significado metodológico dos mesmos. Mistagogia que é de responsabilidade de toda a comunidades cristã, impregnada pelo mistério da Páscoa de Cristo e um lugar privilegiado de inculturação. Mistagogia que seja um processo formativo e uma verdadeira escola de fé.[9]

4.2 Princípios da Mistagogia Motivacional

Traçado o quadro referência da meta-metodologia da catequese como o Amor-Entrega, traçamos abaixo os princípios básicos da Mistagogia Motivacional:

1º Conhecer o Mistério Revelado. A catequese é uma formação orgânica e sistemática da fé, e procura assim o aprofundamento vital e orgânico do Mistério de Cristo, [10] uma fé professada, celebrada, vivida e orada.[11] A Mistagogia, através da introdução do catequizando na linguagem simbólica e sacramental, procurará transmitir o conteúdo do Mistério de forma orgânica, de tal modo que cada catequizando possa ver na Revelação a solução para os profundos questionamentos de sua vida. Por isso, o catequista precisa conhecer o Mistério, a Revelação do Mistério, sua comunicação na liturgia e a vivência pela caridade, articular a transmissão do Mistério em torno do Amor Entrega tanto diacrônica como sincronicamente.

2º Conhecimento da própria disposição pessoal pelo catequista e do próprio estilo de comportamento motivacional. O catequista deve ter consciência da formação da própria disposição pessoal no processo da socialização dentro da sua cultura e como o Mistério Revelado, celebrado e vivido, satisfaz as suas necessidades e motivação, isto é, seu estilo de comportamento motivacional.

3º Conhecer a disposição pessoal do catequizando e seu estilo de comportamento motivacional. O catequista, a partir do conhecimento da própria disposição pessoal e da sua formação poderá conhecer a disposição pessoal dos catequizandos e o processo da formação das respectivas disposições pessoais, para assim poder ministrar a catequese de modo eficaz. Entender como a disposição pessoal do catequizando foi formada na cultura, no processo de socialização. E a partir do conhecimento do próprio estilo de comportamento motivacional, entender o processo motivacional desses mesmos catequizandos, isto é, como é o processo dos catequizandos em satisfazer as próprias necessidades.

4º Comunicação do Mistério a partir das disposições pessoais e da motivação destas numa perspectiva inculturada. O catequista conhecendo seu próprio estilo motivacional, sua formação e processo motivacional próprio, vai poder estimular os catequizandos a mergulharem no Mistério do Amor de Deus revelado em Jesus Cristo a partir de próprias interrogações destes. O catequista procura auxiliar o catequizando a ver no Mistério a satisfação de suas necessidades, das suas motivações mais profundas, ver no Mistério a sua auto-realização como ser humano na plenitude do Amor Entrega na comunhão da Trindade. Numa perspectiva de inculturação, o catequista nesse processo de conhecer a disposição pessoal formada na cultura procura descobrir as “sementes do Verbo” e auxiliar o catequizando a discernir os valores evangélicos, em primeiro lugar o amor como Entrega. Nesse processo de inculturação também denunciar as estruturas de dominação, para que o catequizando purifique sua forma de amar.

5º Vivência do Mistério em Igreja. A finalidade da catequese é a consciência de que a vivência em comunidade deve refletir a essência do Mistério e sua vivência integral. Vivência comunitária dos três eixos da unidade pastoral: o Evangelho que anuncia o Mistério e forma a disposição pessoal para o amor-entrega, a experiência do Mistério do amor na Liturgia e na convivência amorosa dentro de cada comunidade. O catequizando experimentando a Entrega de Deus na pessoa do catequista e dos outros cristãos se sentirá impelido a viver em comunidade e a se tornar um outro evangelizador. Esse processo cria vínculos eternos que constroem a comunidade, a Igreja.



[1] Cf. PESENTI, G. G. Mistagogia. In: BORRIELLO, L. et alli. (Orgs.). Dicionário de mística. São Paulo: Loyola; Paulus, 2003, p. 702.

[2] Cf. Bento XVI. Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis: sobre a Eucaristia como fonte e ápice da vida e da missão da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2007, 64.

[3] CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Diretório Geral para a Catequese, 1997. São Paulo: Loyola, 2003, 107.

[4] Cf. Diretório Geral para a Catequese 41.

[5] Cf. Diretório Geral para a Catequese, 85.

[6] Cf. Gaudium et Spes, 22.

[7] Cf. LÓPEZ. J. A. U. Mistério. In: PEDROSA, V. M. D. et alli. (Org.). Dicionário de catequética. São Paulo: Paulus, 2004, p. 759.

[8] SARTORE, D. Sinal/símbolo. In: SARTORE, D.; TRIACCA, A. M. (Orgs.). Dicionário de liturgia. São Paulo: Paulinas, 1992, p. 1150.

[9] Cf. Diretório Geral para a Catequese, 90-91.

[10] Cf. Diretório Geral para a Catequese, 66.

[11] Cf. Diretório Geral para a Catequese, 130.